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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Deus é quem o homem quiser...


Si Dios fuera una mujer


¿Y si Dios fuera mujer?
pregunta Juan sin inmutarse,
vaya, vaya si Dios fuera mujer
es posible que agnósticos y ateos
no dijéramos no con la cabeza
y dijéramos sí con las entrañas.

(...)

Ay Dios mío, Dios mío
si hasta siempre y desde siempre
fueras una mujer
qué lindo escándalo sería,
qué venturosa, espléndida, imposible,
prodigiosa blasfemia.

Mario Benedetti

terça-feira, 29 de setembro de 2009

REPEAT XV ou P



"Your love is something I cannot remember"


Dizia Ricardo Reis num qualquer poema que as pessoas só são infelizes porque desejam aquilo que não têm (eu acho que esse é um dos objectivos básicos de todo e qualquer ser humano - a eterna insatisfação). Mas neste momento, não sei o que desejo, se me perguntassem, acho que responderia... Bolo de chocolate! Quererá isto dizer que estou perto daquilo a que andam praí a chamar felicidade?

"I don't wanna feel like I don't have a future"

sábado, 26 de setembro de 2009

Bolas de Sabão


"As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente
."

Alberto Caeiro in O guardador de rebanhos

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Destino: BABEL

"Tenho a convicção de que um escritor acredita mais na palavra deus do que em Deus propriamente dito. E este modo de colocar a linguagem no quarto principal do palácio não é de forma alguma exclusivo dos poetas, pois também os que trabalham com leis confiam mais nas palavras do que na vida em geral. Ou seja: confiam menos nas coisas que vão acontecendo antes ou durante a existência do verbo do que no verbo propriamente dito. Para descrever o aparecimento da Surpresa no mundo não há decreto-lei, mas haverá certamente um verso. Para a descrição da Repetição não existirá um verso, mas um decreto-lei que a entende, explica e prevê. A vida inteira encontra-se, assim, coberta por palavras. Apenas com vinte e seis letras se dá nome a todas as coisas do mundo e se explicam os inteiros movimentos de todas as coisas do mundo. O que se conseguiria, então, se o alfabeto tivesse vinte e sete letras? Há quem considere, aliás, que o brutal desconhecimento de Deus se deve precisamente à ausência desta última letra do alfabeto. E a qualquer Língua falta uma última letra. Terminámos cedo demais e, assim, ficámos com os Mistérios no mundo. Mas isto é outro assunto, senhor Breton."
Gonçalo M. Tavares

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

D. Quixote e Sancho ou Moinhos e Gigantes


Há um poema de António Gedeão, que não é nada rebuscado, que desde que o li a primeira vez, decorei-o e agora, como uma ecolália, repito-o na minha cabeça quando estou dividida. É ou não é uma metáfora perfeita da vida? Moinhos e Gigantes...

Lembro-me como se fosse hoje da minha professora de português do 9º ano, a lê-lo em voz alta, mas dela tenho uma história mais bontita para contar, um dia destes...

Impressão Digital
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Leituras em tempo de cansaço II

"Un malfaiteur bienfaisant, un forçat compatissant, doux, secourable, clément, rendant le bien pour le mal, rendant le pardon pour la haine, préférant la pitié à la vengeance, aimant mieux se perdre que de perdre son ennemi, sauvant celui qui l’a frappé, agenouillé sur le haut de la vertu, plus voisin de l’ange que de l’homme !"


Victor Hugo - Les Misérables

Sim, porque agora leio em francês, ou seja, vou levar mil anos a acabar o livro

sábado, 6 de junho de 2009

Think before (over)reacting


Um dos meus maiores defeitos sempre foi a impulsividade. Magoei muitas pessoas de quem gosto e, por incrível que pareça não tomei consciência da mudança. Mas fi-lo porque alguém começou a comportar-se como eu e eu não gostei =P
Ainda me custa e é por isso que escrevo agora, para isso tenho um blogue.

Quando ouvir ou ler coisas que me fazem ficar triste, em vez de mandar mensagens parvas de que logo a seguir me arrependo, gritar, chorar e dizer baboseiras das quais me arrependo assim que acabo de as dizer, em vez de fugir, para depois voltar logo a seguir... Respiro fundo, olho para o lado esquerdo, depois para o lado direito e se não houver perigo, sigo em frente. Sim, é como atravessar uma estrada, se chegarei ao outro lado... Quem sabe?

"Bem alto foram os gritos e os braços erguidos,
bem amargas as lágrimas choradas.
E secas as lágrimas estalaram as raivas
nas florestas de braços aflitos.

... A Vida lá vai,
mais amada que ontem, mais desejada que nunca!"


Manuel da Fonseca

terça-feira, 7 de abril de 2009

"BLOGUE"

"(...)
Hoje quase não volta a essas páginas
estamos no século XXI
e em vez do diário de outros tempos
mantém agora um blogue
onde todos os dias extravasa
recados, atitudes,confissões,
coisas no fundo tão inofensivas
como o fogo que outrora lhe acendia
as frases lancinantes
- embora hoje em dia quando escreve
tenha por um momento a ilusão
de que as suas palavras continuam
a proagar ainda o mesmo vírus,
a a alimentar, quem sabe, os mesmos sonhos
sempre que alguém desconhecido as ler
como quem só assim então escutasse
um segredo na noite so mundo.

Mas, apesar de todo o entsiasmo
que o mantém acordado por noites sem fim
ele adivinha que também virá
um dia a abandonar sem saber como
o seu actual vício solitário
e dentro de alguns anos, ao reler
as frases arquivadas no computador,
talvez tudo isso lhe pareça então
fruto de gestos tão adolescentes
como os que antigamente preenchiam
esses caderos amarelecidos
e hoje sepultados para sempre
em esquecidas gavetas de outro século."

Fernando Pinto do Amaral (escritor, tradutor e crítico literário)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Pessoa abre a casa aos seus "EU's"


A Casa Fernando Pessoa vai inaugurar esta quinta-feira, pelas 18:30, uma exposição de fotografias da autoria do ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo sobre o universo de Álvaro de Campos, no âmbito de um projecto que prevê abordar, ao longo deste ano, os três heterónimos mais importantes do poeta português.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Eu sou um "Cântico Negro"


"Alma Labirinto"

Houve um SENHOR que viveu e morreu até, antes de eu nascer, ainda assim, fez a minha biografia, fez-me nascer em letras, num dos poemas mais bonitos que já li, com tanto de bonito como de negro.

Mas eu sou assim, ainda que haja quem pense que não tenho princípios, engana-se. Eu rejo-me todos os dias pelo Princípio da Incerteza. Não sei que quero, não sei quem quero, não sei para onde hei-de ir, como hei-de ir, não quero lembrar o passado agora, nem imaginar o futuro e o presente nem existe, só se descreve o antes e o depois, é um limite tangencial ao agora que vai para mais ou para menos infinito, não é nada.

Ai passado, já passaste, vivi-te?, ai futuro, porque és tão incerto, porque és como eu? Não quero escolher, escolhe tu! Não sou (in)feliz, contento-me com pouco, mas quero sempre mais do que posso ter. Estou bem, até quando estou muito mal, só não estou bem, quando não estou em mim. Não me entendes? Então lê-me:

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio

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