domingo, 9 de março de 2008

O Médio Oriente no Grande Ecrã

«Caramel» e «Persépolis». O primeiro tem nome de doce e foi realizado por uma libanesa, o segundo foi realizado por uma iraniana e tem o nome da capital do antigo Império Persa, que na Antiguidade dominou a região do Médio Oriente.

400x330

«Caramel» é sobre cinco mulheres de gerações e religiões diferentes, que se encontram regularmente num salão de beleza em Beirute para discutir os seus problemas que afinal resumem os dramas da mulher comum.

persepolis-morceaux-choisis-2

«Persépolis» é um género de «filme autobiográfico» que retrata a vida de uma menina precoce e extrovertida no instável país que é o Irão, um filme que tinha de ser de animação porque afinal é uma descoberta que parte da infância, uma revolta inocente pelas limitações de expressão e pelas imposições da religião - afinal «Persépolis» é o desenho que Marjane Satrapi, realizadora e protagonista, faz do próprio país, e isso também é uma maneira de nos mostrar de maneira mais simples e acessível como é afinal o Irão, esse mito dos telejornais, esse nome entre tantos dos países do Médio Oriente, essa parte do país que soa como «Voldemort» para a maior parte do mundo e em especial para os Estados Unidos da América.

400x330 vvvv

Mas afinal o que é que «Caramel» e «Persépolis» têm em comum? Simples. Tanto Nadine Labaki, realizadora de «Caramel», como Marjane Satrapi quiseram mostrar que os seus países não são apenas um bando de pessoas com pistolas na mão como os imaginamos e vemos sempre na televisão, mas um conjunto de pessoas cultas e corajosas, que fazem a sua vida apesar das bombas que lhes caem a milímetros dos pés. Estas duas cineastas não quiseram insurgir-se contra o mundo pelo facto de sofrerem e precisarem de ajuda, quiseram apenas partilhar a cultura de uma zona que generalizamos como «perigosa». Em «Caramel», vemos um cenário parecido aos filmes de Pedro Almodóvar, histórias divertidas, bem escritas, e interessantes do ponto de vista humano, psicológico, no seio do Líbano, onde as mulheres vivem segundo algumas limitações religiosas e sociais: nem todas vestem burkas mas espera-se que casem virgens, que casem cedo, não se aceita a homossexualidade, entre outras coisas. Em «Persépolis», percebemos que Marjane vive a Revolução Islâmica, mas um pouco à semelhança do governo de Salazar, alimenta-se do que é censurado e procura estudar, desenvolver-se, conhecer outros países, e lutar contra os preconceitos dizendo bem alto «sim, sou iraniana, mas não é por ser do Médio Oriente que sou terrorista».

perse2

Estas duas realizadoras têm também um sentimento que nós não temos: o compromisso com o país. Elas fizeram estes filmes sem segundas intenções nem mensagens subliminares contra o mundo Ocidental, a sua ideia era mesmo fazer algo por esse lado do mundo que não conhece a sua realidade. Nadine Labaki admitiu que se sentiu um pouco estranha por ter feito um filme que não falava da guerra, o primeiro na história do cinema do Líbano, mas afinal quem precisa de filmes sobre guerra quando se acumulam nos cinemas e nos deixam sem uma imagem real do país, essas paisagens que não conhecemos, as pessoas não-feridas, debaixo dos destroços? Mas nós não queremos fazer filmes sobre Portugal, porque somos um país como os outros agora, e fazemos filmes sobre histórias que pouco têm a ver com a nossa cultura. Estas pessoas não. Apesar da guerra e de todos os problemas, têm muito carinho pelo seu país, coisa que nós não sentimos activamente, talvez porque não estamos em guerra como eles.

persepolis

«Caramel» e «Persépolis», versões limpas de sangue e ruínas do Médio Oriente, aconselháveis especialmente a pessoas que dizem «Médio Oriente? Era mandar para lá uma bomba e rebentar com tudo».

3 Comentários:

Alison disse...

Talvez deva ver estes filmes então...
Digo-me que há pessoas que têm sorte e outras não. Há pessoas que nascem no Ocidente, outras no Oriente. O que é que se pode fazer, hein?

PL disse...

Gostei da escrita, sim?
E mesmo que tenha gostado do que li não os irei ver antes de os apanhar nalgum canal por cabo.

Anónimo disse...

palmas =)
ainda não vi o Caramel mas irei ver com certeza. concordo com cada letrinha. gostei muito de ler! tás contratada quando eu tiver uma revista :P

Powered By Blogger

Etiquetas

BloguEL © 2008. Template by Dicas Blogger.

TOPO  

counter to blogger