quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Porque é o cão a abanar a cauda e não a cauda a abanar o cão

A história para este post é simples. Tive de fazer um trabalho abordando um problema ético de um filme. Por sorte, tropecei emWag the Dog antes de me decidir qual seria o filme. Aqui fica uma parte mais leve do meu trabalho com uma abordagem não tão séria:





O filme Wag the Dog – Manobras na Casabranca, em português – foi realizado por Barry Levinson em 1997 e protagonizado por Robert de Niro e Dustin Hoffman e acabou por se tornar numa das melhores sátiras à política dos Estados Unidos da América. Podendo até compará-lo com o filme de Kubrick, Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, ou ao The great dictator de Chaplin, tanto pela já referida sátira, como pela divertida faceta paranóica e claustrofóbica. A maneira utilizada pelo realizador para nos convencer é algo ortodoxa, usando o absurdo como arma. A menos de duas semanas das eleições presidenciais, eclode um escândalo na Casa Branca: o Presidente dos EUA é acusado por uma adolescente (ainda por cima escuteira) de "conduta sexual indecorosa", um caso que poderá pôr em xeque a sua reeleição, numa altura em que as sondagens lhe dão uma confortável vantagem de 17%...

Para evitar o pior é preciso abafar o caso e manter a opinião pública "distraída" durante onze dias. É então chamado de emergência Conrad Brean, um consultor político da confiança do Presidente. A solução encontrada é simples: "fabricar" uma guerra. Uma guerra "virtual" a que o chefe de estado americano possa depois pôr cobro, rápida e heroicamente e assim fazer esquecer o caso.

Apesar de não ser fácil encontrar um "inimigo", a escolha acaba por recair na aparentemente inofensiva Albânia. Mas é preciso mais, falta concretizar a ideia, dar-lhe espessura. Por isso, Conrade a conselheira de estado, Winifred Ames, recrutam Stanley Motss, um espalhafatoso produtor de Hollywood habituado a pôr em cena grandes espectáculos.

E juntos vão construir uma gigantesca encenação, um logro que a cada passo se torna mais rocambolesco: dos relatos das missões do misterioso (e inexistente) bombardeiro B-3 e das actividades militares suspeitas (e, claro, falsas) de terroristas albaneses às canções e mártires forjados, nada é demasiado inverosímil, porque, acima de tudo, o espectáculo tem de continuar.

De facto, quem verdadeiramente domina a democracia americana são os capitães da indústria, a estrutura política e os seus directorados, os "senhores da guerra" e, à sua volta, a corte mediática das celebridades e os muitos ricos.



Quando Conrad Brean, o consultor político, é chamado para abafar o caso do presidente com a escuteira e é confrontado com a história, pouco se preocupa com a verdade. Conrad demonstra-nos logo nos primeiros minutos do filme que não está ali para andar lado a lado com a verdade. Separa logo a política de verdade. O consultor manda desde logo antecipar uma outra notícia para abafar o escândalo. E como não pode ser uma notícia qualquer, a solução que acaba por ser encontrada é o país entrar em guerra. Uma guerra que não existirá para além do plateaux. A Albânia é escolhida porque supostamente nada se sabe sobre esse país – “que sabes sobre a Albânia?”.

Para encenar a estratégia delineada, Conrad procura a ajuda de um produtor de Hollywood convencendo-o a alinhar. A maneira de o convencer foi demonstrando-lhe o poder que tinha como consultor político e mostrando-lhe a força que as guerras têm: “Recordarmos os slogans mas não as guerras. Sabe porquê? Show business. Por isso estamos aqui”. Relembra-lhe várias imagens como por exemplo os cinco fuzileiros a levantar a bandeira americana no Monte Suribachi acrescentado: “Lembra-se da fotografia mas esqueceu-se da guerra” e “um vídeo dessa guerra e os americanos acreditaram nela”. A razão porque a guerra com a Albânia vai acontecer só vai ser decidida depois: “Pela liberdade? Não, eles querem destruir-nos”. Podemos concluir que esta “campanha” se vai basear não só na mentira, mas também na força da imagem.

A força da imagem desta dupla formada pelo consultor político e pelo produtor vai da preparação do mínimo pormenor à mais fina excentricidade. Para exemplificar isso está todo o trabalho de produção feito por Stanley Motss aquando da gravação da cena gravada em estúdio que mostrava uma inofensiva aldeã albanesa a fugir dos terroristas com o seu gato ao colo. Motss intervém até na escolha da raça do gato. E porque é que as imagens têm tanta força? Porque são particulares e concretas. Enquanto que as palavras designam conceitos gerais, as imagens são de cariz intuitivo e, portanto, de representações particulares. As imagens estão mais próximas da realidade e não há retórica que valha à realidade. Daí a dupla do filme preferir usar as imagens de uma guerra do que um discurso muito bem organizado do Presidente.

Quando a C.I.A. acaba com a suposta guerra na Albânia, Motss não dramatiza e vê dá logo a solução para o problema: “Isto é só a 1ª Parte: “A Guerra”. Agora precisamos de uma 2ª Parte”. E uma pessoa presente acrescenta: “Sabes o que isto parece? Os japoneses nas cavernas. Okinawa. Eles não acreditavam que a guerra tinha acabado”. Motss completa: “Um bravo soldado americano é deixado para trás. Um herói. Onde é que eu tinha a cabeça? Não podemos ter uma guerra sem um herói.” Ou seja, os momentos seguintes vão se centrar à volta do resgate do soldado deixado para trás como um sapato velho (Old Shoe – em inglês). Uma velha música é recordada para reforçar ainda mais o sentimento que vai comover o povo americano sobre o tenente que ficou para trás.

O funeral militar do soldado acaba mesmo por acontecer e comove toda a nação. E aqui, mais um pormenor: um cão acompanha o caixão. O cão é acrescentado à cerimónia para demonstrar como a história era marcante, inclusive para o melhor amigo do homem.


Este filme saiu ainda antes do escândalo de Bill Clinton com Monica Lewinsky, apesar das semelhanças entre os dois. Mas também estabelece semelhanças com o mandato de George W. Bush e provavelmente aparecerão também semelhanças com o próximo mandato. Quero com isto dizer que este não é um filme sobre um presidente em particular. É um filme sobre política e toda a desconfiança à volta dela. É um filme sobre a desconfiança por vezes paranóica sobre a falta de ética na política.
Se há alguma unanimidade nas sociedades democráticas modernas concentra-se no universal desprestígio do político. Por onde se vai observa-se, da parte do cidadão comum, uma profunda hostilidade ou sarcasmo dirigido a ele. Considerando-os uns tipos suspeitos e oportunistas que apenas se interessam pelos seus ganhos e pela sua reeleição.Esse descrédito, por extensão, termina por se estender para a política num sentido mais amplo, vista como uma prática malévola, que apenas desperta o lado mercenário e interesseiro das pessoas, e não como o estuário natural onde desaguam os interesses legítimos e conflituantes da sociedade civil.




A ética pode ser definida como a parte da filosofia que aborda os fundamentos da moral, o que concerne aos princípios da moral e a ordem social aquilo que orienta a organização das relações Sociais, em oposição à moralidade, que enuncia os princípios da acção individual. A ética define directamente a forma de comportamento social de um indivíduo ou de um grupo humano (roupas, comportamento e cultura). O tipo de “crise política” apresentada no filme sugere algumas reflexões sobre o problema da ética na política. O político, na sua capacidade de definir instituições e tomar decisões estratégicas na vida das nações, tem uma influência sobre a vida das pessoas maior do que a de qualquer outra profissão.
A ética da política, porém, não é a mesma ética da vida pessoal. É claro que existem princípios gerais, como não matar ou não roubar, mas entre a ética pessoal e a ética política há uma diferença básica: na vida pessoal, deve-se esperar que cada indivíduo aja de acordo com o que Max Weber chamou de ética da convicção, ou seja, a ética dos princípios morais aceites em cada sociedade; já na política prevalece a ética da responsabilidade.A ética da responsabilidade leva em consideração as consequências das decisões que o político adopta. Em muitas ocasiões, o político é obrigado a tomar decisões que envolvem meios não muito nobres para alcançar os objectivos públicos. O político, por exemplo, não tem alternativa senão fazer compromissos para alcançar maiorias.

A expressão "ética da responsabilidade" vem de um princípio clássico republicano de Maquiavel de que “os fins justificam os meios”. Para o fundador do republicanismo moderno, o interesse público era o critério essencial, mas, diferentemente do conceito de ética da responsabilidade, ele justificava praticamente qualquer meio desde que visasse o interesse público.

Há certos casos em que a imoralidade é apenas em relação aos meios, outros, apenas quanto aos fins, mas geralmente são uma imoralidade tanto quanto aos meios quanto aos fins: o político usa quaisquer meios para atingir os seus fins pessoais. Nesse caso, temos a imoralidade absoluta, o oportunismo. Como escreveu Epicuro (341-270 a.C.) “O sábio não participará na vida pública se não sobrevier causa para tal.” Esta frase – tal como o próprio filme - vem demonstrar, exactamente a separação entre ética e política. Ou de outra maneira: mostra como a ética pessoal é diferente da ética política.

O presidente acaba por ser reeleito com 89% dos votos e o produtor Motss não se sente satisfeito por ter sido o slogan “nunca troques de cavalo a meio do rio” a ficar com os louros e por ter sido apontado como o responsável pela vitória. Nessa altura Motss dá-se conta que aquilo foi o melhor trabalho da sua vida como produtor. E não ser reconhecido mais uma vez acaba por o irritar e fá-lo revoltar-se.
Motss quer agora contar a verdadeira história para lhe reconhecerem – finalmente – o mérito como produtor. Por uma vez na vida ele quer ter o mérito do seu trabalho.

Que decide Conrad fazer perante isto? Ressuscitar uma das maiores imoralidades actuais: matar. Manda matar Motss, com o propósito de salvar o recém reeleito presidente, mais uma vez.

O final vem resumir tudo o que foi feito ao longo do filme: imoralidades. Imoralidades políticas para se ganhar uma eleição. O filme não passará, por ventura, de um exagero completo à volta da política, mas mesmo assim representa-a de forma algo credível.










Que faz este senhor aqui? Óbvio, não? Não é este o homem um dos maiores manipuladores de informação da actualidade?

4 Comentários:

Alison disse...

E o caso Sarkozy/Carla Bruni? Enquanto a imprensa mostra o casal a passear pela Jordânia ou a cumprimentar o Mickey e a Minnie, as pessoas não se lembram da polémica em volta da visita de Kadhafi, o terrorista. Aqui, é o contrário do filme: uma relação amorosa abafa os crimes.
É simples, os políticos usam o poder que lhes conferimos e manipulam-nos.
Se não fosse a misteriosa fuga de gás, ontem tinha um exame relacionado com a ética e a responsabilidade social das empresas. Continua a ser um julgamento entre o Bem e o Mal mas abrange outros aspectos: a corrupção, as práticas laborais, o ambiente e os direitos humanos.
Vai tudo a dar ao mesmo: "La faim justifie les moyens". Na expressão francesa, também se usa o termo "faim" (fome, avidez, cobiça, ganância) em vez da tradução à letra "fin". Gosto mais desta, visualiza-se melhor a ideia. Definitivamente, as imagens têm mais força do que as palavras.
E pronto, escreveste um grande post e tive de escrever um comentário compriiido. Espero não me ter perdido!

Fátima disse...

ai jesuuuuuuuuuuuuuuuuuus, este é o maior post do senhor Bill!!!!! quando vim cá até me assustei.
bem, só digo: ver «CHARLIE WILSON'S WAR» (ou «Jogos de Poder»), pois também espelha esta situação.

EL disse...

O cinema é um pouco dicotómico em termos de ética, porque se existem filmes para criticar condutas e que lutam pela moralidade, há outros que são bastante imorais. É interessante ver que a ética que eu dei centrava-se numa mistura de ética de convicção e ética de responsabilidade. Uma vez que, devemos continuar fiéis a nós próprios sem desrespeitar as pessoas de quem cuidamos e isso vê-se nas séries e filmes em hospitais, uma luta constante entre valores pessoais e alheios. Até existe um código deontológico, com os princípios da beneficiência e não maleficiência, o respeito... e claro que acaba por ser tão vago como a ética em si.
A política é o melhor exemplo de imoralidades. Tudo bem que todos, à sua maneira tentam o bem comum, mas ninguém me venha dizer que um político o é por puro altruísmo, todos querem os benefícios do cargo que têm e não estou a falar de aplausos nem maiorias em sondagens. Muito bem escolhido o tema sim senhor.

Fátima disse...

já vi o filme!!! e tá fantástico, porque a equipa que faz o filme nem sequer votava!!!

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